19.6.10

=copa do mundo, patriotismo, identidade nacional=

Na incapacidade de escrever um texto sobre, vai um samba. É uma colcha de retalhos de 7 minutos, um amontoado de referências da música popular brasileira: João Gilberto, Zeca Pagodinho, Tom Jobim, Benito de Paula, João Bosco, Jorge Ben, sambas-enredo clássicos, Chico Buarque, Molejo, João Nogueira, Gilberto Gil e outros.





achados e perdidos
(felipe schuery)

uma identidade foi achada nas areias da praia de copacabana após mais um reveillón com baixa estatística de crimes registrados nas dps/carimbado estava: mestiço, e, na foto 3x4, um retrato do brasil/o grupo que encontrou o documento o entregou ressabiado nas mãos do delegado que assistia a um videotape com os melhores momentos da seleção canarinho em amistosos contra o chile/a reportagem do jornal de bairro destacou gilberto freire, sérgio buarque de hollanda, antonio cândido, celso furtado, darcy ribeiro, entre outros do grupo/que estourou garrafas de champanhe antes e depois da boa ação/ao fim do videotape, o delegado primeiro ligou a cobrar para o acre e desejou um próspero ano-novo aos avós que moravam lá/depois, por puro passatempo, levantou o histórico do cidadão via ifp/fez um cafezinho, acendeu um cigarro, abaixou a tv/encontrou pouco sobre situações em que o elemento batia no peito para revelar sua identidade/e por “pouco” entenda bola no pé, medalha no peito, taça na mão/muito havia sobre pouco-caso e incerteza sobre as próprias atitudes/feito cão vira-lata procurando dono, querendo colo, matilha, raça/(e carimbado lá estava: mestiço)/olhava o vizinho com curiosidade: argentino bate panela, cultiva os ídolos, canta tango/por una cabeza.../olhava o próprio umbigo com incredulidade: brasileiro deixa estar, a vida leva, dança samba/sem idolatria, malandro/bater no peito, vestir camisa, mostrar bandeira traziam nhaca ufanista dos anos de chumbo/atestado de apoio ao governo e alienado à corrupção/confusões de ben com patropi, ivan lins com “meu país”/bandeira serve para enfeitar varanda e carro em dias de copa do mundo/o cidadão, de quatro em quatro anos, tira a dele da gaveta para cantar o virundum e se emocionar/o delegado desconfia que algum dia, em algum lugar, tenha havido certo alívio pelo fato de a capital tupiniquim ter se mudado para um deserto/longe demais dos grandes centros/a panela de pressão esfria, a gente esquece e tudo segue em frente/deixa a vida me levar/espero sua visita, meu amigo charlie brown/na linda manhã do ano novo que nasce, tudo continua de maneira cordial/nas areias das praias, bolsas foram achadas/ muitas identidades foram deixadas para trás/ várias foram roubadas/outras o mar apagou/nunca houve queixa alguma/brasil tanto faz

Música feita originalmente para o projeto Música Artesanal

2.4.10

=joão gilberto passando som=

Para vocês começarem bem o feriado, olhem que coisa maravilhosa o João passando o som no Teatro Castro Alves, na Bahia, em 1978, e, dentro da sua mágica obsessão com a qualidade, mandando pérolas como:

- "Nhé, nhé, nhé não é esse o som!"
- "Olarião, o som é bom, eu sei, tem qualidade, mas..."
- "Não quer mudar um pouquinho a posição das caixas? Uma movidazinha já pode dar uma situação."
- "Olarinha, um outro microfone também... isso funciona à beça"
- "Eu não tô dizendo que seja ruim, não, mas... de acordo com o TUDO..."
- "Gostei da voz aí, deixa aí! conserve isso por favor..."

Para logo depois:

- "Pode ser um pouquinho de grave na voz... sem deixar embolar..."

Rala, Olarião! E a Miucha sempre lá, firme e forte ao lado do então marido.



"É só no samba que eu sinto prazer... a voz está boaaaa!"



- "O violão que eu pedi não veio, né... Era pra provar... É outro balanço... tocar com esse... ó, os dedos, é brincadeira... marca mesmo."
- "Heloisa, os comecíssimos das palavras. Pra 'Já' não ser só 'a'"
- "Olarinha, grave, marque os números aí, viu? Marque os números, guitarra e violão, baixo, tudo o que for de número, num papelzinho assim..."



- "Oladian, você marcou aí? Tudo, Salomão? Eu vou cantar uma canção para ver se funciona também nesse sistema..."

E quando tudo parecia nos eixos...

- "Venha cá, Salomão,você subiu um pouquinho o volume, não foi? Eu senti qualquer coisa assim. Dentro desse pouquinho que você aumentou, deixa eu fazer mais uma música... 'Triste é viver na solidão...'"



Dica do Mauricio Coutinho

30.8.09

=número de série, live at Hampstead Heath=



número de série
(felipe schuery)

se afogou em números/da boca escorria uma parte do rg/expeliu as senhas somente depois que o socorro chegou/subtraindo, dividindo e apagando/aplicando equações, descobrindo pis/pasep/cpf, agência, conta, inscrição/telefones de casa, do escritório/celular do chofer e da amante.../aí armou-se o banzé/e a mulher gritou no pé do ouvido do marido/o número de série do revólver que estava na gaveta

24.8.09

=a letra da canção desgovernada, live at Hampstead Heath=



a letra da canção desgovernada
(felipe schuery)

forasteiro arrombou a porta
invadiu a letra da canção
estragou meu argumento
desestruturou meu fim
a donzela que estava prometida para o refrão
foi deflorada logo na primeira estrofe
passou a fumar
soprou fumaça na minha cara
exclamou: "fui maltratada e confesso que gostei!
leve-me para o refrão com outros três!"

fascinante aberração
cortejo de horrores
a letra da canção desgovernada
grande show de atrações
um circo monstruoso
a letra da canção desgovernada

bandoleiro fortemente armado
educado, veio conversar
convidou-me para um tiro
disse me admirar
mas pediu com gentileza que a letra da canção
priorizasse moda e amenidades
passei a fumar
tomei cachaça da mais barata
praguejei contra a cascata do letrista popular
que conduz a criação sem padecer

fascinante aberração
cortejo de horrores
a letra da canção desgovernada
grande show de atrações
um circo monstruoso
a letra da canção desgovernada

15.8.09

=contranada, live at hampstead heath=



=data crônica=
contranada
(felipe schery)

bolo no forno/tem folha de sonhos/aluguei 2001/comprei colchonetes/equipei o som/dentro do mundo/país, cidade/bairro, prédio, sala e tela/cabeça no espaço/que a moldura (não?) enquadrou/caixa-crânio sem xyz/fim do alfabeto/contranada em mim

13.8.09

=êêê, meu amigo charlie=

Estou fissurado nesse clássico da música popular brasileira aí embaixo. Benito di Paula, nascido Uday Veloso (isso mesmo, Uday), fez a letra como se estivesse recebendo Charlie Brown (isso mesmo, o personagem) em terras brasileiras, apresentando as coisas boas da terrinha.

Apesar da menção aos urubus, a música é sensacional.



Veja de onde veio a inspiração.

"Fiz a música na época em que eu morava em uma pensão de italianos, e eles liam a revistinha em quadrinho e riam à beca. Um dia, pedi para traduzirem para mim, eles traduziram e aquilo me deu a idéia de montar uma história como se o Charlie Brown estivesse chegando no Brasil e eu tivesse que apresentar o país a ele."

Fonte: Gazeta Online

12.8.09

=almoço de terça (atrasado)=



- quiche provençal
- quiche tourrangelle
- tarte noix de coco (sobremesa)
- crumble (sobremesa)

Isso para dois, claro.

Se fui eu que fiz? Claro que "dão". O =almoço de terça= não deixará de ser tosco de um país para outro.

9.8.09

=hampstead heath=

Hampstead Heath é meu parque londrino preferido. Grande, trilhas e trilhas no meio da mata, bela vista da cidade no Parliament Hill, piquenique no gramado da Kenwood House nos fins de semana, natureza selvagem, lagos para banho, bancos de madeira em homenagem aos que já partiram e ali curtiam a vida, molecada brincando, shows, coelhos, esquilos, enfim, paisagem espetacular e opções para quem quer zoeira ou tranquilidade.

Outro dia bateu aqui na porta um carinha de igreja evangélica. Perguntou se eu queria viver num lugar como o que aparece no folheto.



- Claro, todo mundo gostaria - respondi.
- Então entra para nossa igreja.

Eu quase respondi a ele que não precisava, era só ir a Hampstead. Tá vind para Londres? Pegue a Northern Line e dê um pulo lá.

6.8.09

=conglomerado americano de entretenimento, live at hampstead heath=



=data crônica=
conglomerado americano de entretenimento
(felipe schuery)

grandes corporações são poucas/cada vez menos, cada vez maiores/a farmácia ali da esquina foi comprada/pela empresa de tecidos lá da china/e ela faz parte/de um conglomerado americano de entretenimento/o jornal esconde/que os remédios estão podres/o jornal esconde/os escravos tecelões/o jornal esconde/que as ordens vêm de longe/o jornal esconde, o jornal esconde (what about these news?)/supergigantemegamaxiultra/hiper turnês com produção de deus/o estádio centenário foi abaixo/pra que fosse construída a igreja pop/ e ela faz parte/de um conglomerado americano de entretenimento/o jornal esconde/que calaram gente a bala/o jornal esconde/a propina do pastor/o jornal esconde/que as ordens vêm de longe/o jornal esconde, o jornal esconde (what about these news?)

4.8.09

=almoço de terça=

Último =almoço de terça= direto de Londres. Como é tempo de mudança, tentamos acabar com tudo o que está nos armários e na geladeira, então a receita foi o acaso. De novo, obra da visita da vez, minha mãe.



- arroz com alcaparras
- nuggets
- salada

="tantos", live at hampstead heath=



=data crônica=
tantos
(felipe schuery)

disseram que é bom partir/eu li que é melhor ficar/o telejornal diz que basta voar/tarólogos estão em dúvida/tem site que desmente tudo/índios, com fumaça, mostram como é fácil/quem mais pode me socorrer?/quem vou escutar, visto que são tantos?

3.8.09

=cocada do adão=

Antes de vir para Londres, minha mãe perguntou se queríamos algo do Brasil. Eu não quis nada. Como o =data crônica= já registrou, aqui é possível achar produtos brasileiros fácil, fácil.

Como mãe é mãe, paca é paca, fomos presenteados com algo impossível de se conseguir nessas bandas: cocada do Adão. Se você já foi a Cabo Frio e não comeu a cocada do Adão, volte e procure a barraquinha que fica em frente à Drogaria do Povo, na praça Porto Rocha. Tem cocada da preta, da amarela e da branca. Chocolate, leite condensado e coco. Há anos o Adão bate ponto lá. A cocada dele é daqueles doces que acionam a gula sem piedade.

Para brindar o momento inesperado e inesquecível de comer a cocada do Adão muito longe de casa, levamos os quitutes para um rolé por pontos turísticos. Esbarramos algumas vezes com o anão de jardim de O fabuloso destino de Amélie Poulain.

Obrigado, mãe. Obrigado, Adão.


Château de Villandry


Jardins do Château de Villandry


Château d'Azay-le-Rideau


Big Ben